terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Até onde vamos para nos encaixar?

Os padrões impostos pela internet moldam silenciosamente a forma como enxergamos nossos corpos, nossas escolhas e até o nosso valor. Todos os dias somos bombardeados por imagens de corpos considerados perfeitos, rostos sem marcas, vidas aparentemente impecáveis. A repetição desse conteúdo cria a sensação de que existe um modelo certo de existir e que tudo fora disso precisa ser corrigido.


As redes sociais não mostram a realidade, mostram versões editadas dela. Filtros, poses, luzes e procedimentos estéticos transformam pessoas comuns em ideais quase inalcançáveis. Ainda assim, o cérebro compara. E nessa comparação constante, muitos passam a se sentir insuficientes, como se o próprio corpo fosse um erro que precisa de ajustes.


Nesse cenário, a cirurgia plástica deixa de ser uma escolha consciente e passa a ser uma resposta à pressão. Não se trata mais apenas de vontade, mas de pertencimento. Ajustar o nariz, afinar a cintura, eliminar marcas naturais do tempo vira uma tentativa de aceitação social. O corpo deixa de ser vivido e passa a ser gerenciado, como um projeto que nunca está pronto.


O uso de medicamentos como o Mounjaro segue a mesma lógica. Mesmo tendo indicações médicas específicas, seu uso é impulsionado por uma cultura obcecada pela magreza. Em um ambiente que exige resultados rápidos e visíveis, a promessa de emagrecimento imediato se torna tentadora, mesmo quando os riscos são ignorados ou minimizados. A saúde fica em segundo plano quando o padrão vira prioridade.


O mais perigoso de tudo isso é a naturalização. Quando procedimentos, remédios e intervenções se tornam comuns, questionar parece exagero. Mas é justamente aí que mora o problema. Não estamos apenas escolhendo mudar, estamos sendo empurrados a acreditar que não somos suficientes do jeito que somos.


A internet vende liberdade, mas impõe regras. Vende amor próprio, mas lucra com a insegurança. E enquanto seguimos tentando alcançar um ideal que muda o tempo todo, perdemos algo essencial: a capacidade de habitar o próprio corpo com respeito e verdade.


Ser crítico nesse cenário é um ato de resistência. É lembrar que corpos reais têm história, imperfeições e limites. Que não existe padrão capaz de definir valor. E que nenhuma tendência, procedimento ou medicamento pode substituir a paz de se reconhecer inteiro, sem precisar se encaixar.

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